quinta-feira, 22 de março de 2012

Ventania, sorte, outros amores

Numa palavra de amor, coração lançado. Coração lançado à sorte.
Sorte lançada ao vento, que por amor, leva a sorte e o coração até onde bem entender.
Sem mais palavras sobre corações, ventos ou amores sem sorte.

domingo, 18 de março de 2012

Aquecidos livros, aromas e fim

E lentamente, fechou o livro. Ao ler a última página, pareceu não acreditar que havia acabado. Não que ansiasse pelo fim. Pelo contrário. Gostaria de nunca parar de ler.
Ficou algum tempo fitando o vazio. Sem perceber, mexeu um pouco os dedos das mãos para fazer o sangue correr. Ficou muito tempo apoiado e suas mãos pareciam ter ido dar uma volta enquanto lia. Sentiu um leve formigamento e então voltou a si, massageando uma mão com a outra. Ao fechar o livro, suspirou, libertando o que parecia ser uma porção de ar há muito presa em seu peito.
Levantou-se da cama e foi andando até sua estante - ler deitado não é o melhor modo de se fazê-lo, pelo fato de não haver uma posição muito confortável, mas o livro em si faz ou não valer a pena - e separou dois livros, - meio caídos por falta de um outro para mantê-los unidos e aquecidos - colocando o que estava em sua mão no meio dos outros dois. Agora sim, estavam unidos e aquecidos, livros em sua estante.
Afastou-se lentamente, podendo ainda sentir um suave aroma de palavras antigas. Era um ótimo cheiro. Ele o conhecia bem - poucos o conhecem. O cheiro de páginas viradas, frases lidas e capas docemente molhadas por lágrimas de leitores abertos. Ele queria ficar ali, aproveitar o que sentia... Esvaiu-se no ar, o momento. Desapareceu, deixando um toque de desamparo, vazio. O mesmo sentimento que se têm, quando se deita levemente os olhos pela última palavra de um livro. Esse desgosto lhe parecia recente no pensamento...
Ficou algum tempo fitando o vazio. Ainda podia sentir o sangue correndo por seus dedos.
Pareceu não acreditar que havia acabado. Não que ansiasse pelo fim, não. Nunca imaginou a existência do mesmo. Pelo contrário. Gostaria de nunca parar de ler. Gostaria de nunca esquecer, mesmo que por alguns segundos - livros -, o cheiro de tudo que vem antes do final.

sábado, 17 de março de 2012

Um sorriso café

Sentada à mesa, ela sente o delicioso cheiro do café, amargo como o adeus de um amigo em um dia nublado. Café: cheiroso, amargo, café.
Estava sentada perto da porta, o que lhe permitia uma boa visão da rua escura, com luzes tênues de letreiros de bares e olhos cansados da labuta do dia.
Logo, chega o café e, com ele, um sorriso em meio à espuma.
O café lhe sorriu e ela sorriu de volta. Um sorriso cheiroso e amargo. Um sorriso café.

Maçã

Olha-me nos olhos, meu bom senhor e diz que não roubaste esta maçã. Diz que não sente fome e que tem um lugar para morar...
Cansei de pensar. Leve tua maçã... Leve minha confiança na sociedade - se é que esta ainda não foi levada por alguma ditadura moral.
Olha-me nos olhos, meu bom Senhor e leva-me deste mundo. Leve a mim, que sou sua maçã.