Eles estão ali há horas. Um olhando para o outro. Vez ou outra, o escultor pegou o pedaço de madeira, sentindo a vida daquilo que já foi um dia, uma árvore. A madeira fez o mesmo. Sentiu a vida daquilo que já foi um dia, um homem solitário. Hoje, um é madeira, o outro é escultor. Não, arte e artista. Arte que já foi madeira. Artista que é escultor.
A madeira se torna arte a partir do momento em que o artista a vê como arte. O escultor vira artista a partir do momento em que vira escultor. A escultura, para os leigos ou desatentos, parece surgir de fora para dentro. Ou nem isso. Para muitos, ela simplesmente surge. Para o artista, a escultura surge de dentro para fora. Ela pede, implora a todo momento para que seja libertada. A arte anseia por liberdade. O artista é solitário até encontrar a arte e ser livre. Ele é sozinho, livre, mas não solitário. A arte não difere do ser humano em nenhum sentido. Muito menos nesse retratado. A arte respira liberdade, e pode-se dizer até, que liberdade é a arte em sua mais ilustre forma.
Ao longo do tempo, o escultor começa a perceber sua obra. Por várias vezes, ele para e observa o que já foi criado. O que há muito ansiava por surgir do nada, começa a conhecer o tudo. Eles estão ali há horas. Um olhando para outro. Vez ou outra, a escultura perdia sua atenção no mundo novo, o que fascinava ainda mais o seu criador. Ela é arte, está livre.
A liberdade é uma só. A arte é uma só.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Vazio
Aquelas paredes vazias novamente despediam-se de mais uma alma. A cada vez, a mesma coisa. Imparciais, observavam o destino ser traçado naqueles leitos hospitalares, cobertos de sofrimento e pesar. Dessa vez, um caso comum de parada cardíaca. O estresse e as gorduras, como que colocadas minuciosa e atenciosamente por alguém nas paredes dos vasos sanguíneos, impediam o paciente de cumprir sua missão em vida.
A dor. Uma explosão de pensamentos, dúvidas, lembranças. Sinais nervosos percorrem todo o corpo, com esperança de acertar algum lugar que pare essa pane nos sistemas. O sangue não chega ao seu destino. O ar parece não servir para mais nada. A dor. O assustador barulho dos aparelhos toma lugar em todo seu corpo. Os médicos, vazios e imparciais, entram na sala. As paredes, os médicos, sabem que é tarde demais. O paciente também sabe. Então, como se por um estalo de dedos, a sala silencia-se. Só ouve-se o barulho, agora constante, dos aparelhos ressoando pelas lascas do chão e pelas paredes (ainda vazias). A cada vez, a mesma coisa. No começo, estas não suportavam tanta dor. E tinham um lado pelo qual lutar. As paredes, tanto quanto os médicos, queriam ver a vida. Após tanto tempo, o gosto da morte ocupou a esperança, e deixou em seu lugar a rotina, um vazio sem gosto.
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