domingo, 9 de dezembro de 2012
Sorriso de amigo
A noite serena invade as ruas vazias, com suas mãos invisíveis a acender gentilmente as luzes tênues dos postes inertes e casas sonolentas. A cidade se ilumina num ritual vagaroso e trivial. Bonito. Longe dali, ao apoiar-se na janela, ela não ouve nada a princípio. Apenas deixa seus olhos se acostumarem com a densa escuridão do bosque a sua frente. Ela sente a brisa fria tocar-lhe a face e sente-se enrubescer. Seus olhos azuis desviam-se das trevas das árvores e se chocam com o céu estrelado. Não se lembrava há quanto tempo não as via, as estrelas. Ficou por muito tempo a olhar para cima, cogitando várias vezes a ideia de começar a contar todas elas, desistindo sempre, com preguiça. Um vento ligeiramente mais forte e mais gelado arrancou-lhe agora uma lágrima dos olhos. Fungou o nariz e abraçou os próprios braços para aquecer-se. Ia afastando-se da janela, quando lembrou-se de olhar para fora mais uma vez. A noite serena invadiu as ruas vazias, com suas mãos invisíveis a acariciar os vigias sonolentos e os gatos que andavam sob as luzes tênues dos postes inertes. A cidade se iluminara num ritual vagaroso, quase divino. Bonito. Longe dali, ao retornar para a janela, ela não ouve nada a princípio. Apenas deixa seus olhos se acostumarem com a negra escuridão do bosque a sua frente. Ela sente a brisa fria tocar-lhe a face, mas não hesitou e com seus olhos azuis, buscou longe das trevas das árvores o que estava procurand... O céu estrelado. Precisava vê-lo novamente. Parecia-lhe um amigo distante que lhe sorria, as estrelas. Pensou em contá-las... Preguiça. Fungou o nariz, apesar de não haver vento, e despediu-se. Da noite serena, dos vigias sonolentos, dos postes, da escuridão. E apenas sorriu para as pequenas incontáveis no negro firmamento.
sábado, 24 de novembro de 2012
Crônica das palavras e a criação
Outrora, as palavras rebuscavam-se. Escarafunchavam seus âmagos em busca de uma acepção própria, túrbida que fosse. Abalroavam contra os intelectivos, que as capitaneavam com truculência e enternecimento. A existência era infausta e pungente. Não aparentava haver tergiversação de tal detestável conjuntura.
Eis que algo acontece. As correntes que coadunavam tais palavras foram rompidas. Não mais precisavam ser cativas de pseudos eruditos. Com o decorrer do tempo, a prosopagnosia deu fim às barreiras da sociedade. As palavras agora selecionavam seus falantes. E os escolhiam sem ritos ou preconceitos. Todos eram intelectuais. Todos podiam se comunicar uns com os outros.
E as palavras sabiam seu significado. Sabiam sua função e eram reconhecidas por si e por todos. Não havia mais dúvidas, questionamentos e muito menos prisões. Os falsos reis controladores não mais existiam. Falar se tornou uma coisa boa e gostosa de se fazer. Ler virou hábito e ouvir era prazeroso como um banho de sol. E as palavras eram simples como um ponto. Um ponto final. Sem dúvidas, exclamações ou sentimento de que não acabou... Um ponto.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Último frenesi
Chuva. Eles entraram entrelaçados pela porta, com ela já tirando o vestido molhado que usara no jantar. Caíram na cama, balançando a prateleira mal colocada sobre o lado dos travesseiros. Ele a beijava o pescoço, enquanto a apertava contra o peito encharcado, com uma das mãos subindo pelas costas e a outra segurando-a forte pelo quadril. Ela lhe arranhava as costas e os ombros, tentando arrancar-lhe a camisa, e se via perdida nos beijos excitantes que ele lhe dava desde a boca até o peito. Mordidas, gemidos de prazer e uma explosão de sentidos ribombavam nas paredes do quarto e escapavam pela porta deixada aberta. Ela arqueava as costas, suspirando e transpirando sobre o corpo nu de seu parceiro. A intensidade dos movimentos aumentava à medida que a chuva caía. Ele agarrava as beiradas do estrado e ela segurava firmemente a prateleira sobre a cama. Jogava a cabeça para trás, gritando tão alto quanto os trovões que rasgavam o céu fora do quarto. Um último momento de frenesi. Um trovão.
O dia amanheceu. Ela entrou pela porta, sustentando um bocejo. Olhou distraidamente pelo chão a procura do vestido molhado que usara no jantar da noite passada. Carregava uma bandeja com uma bacia de gelo e um pano limpo. Trajando um roupão branco, sentou-se suavemente ao lado dele na cama. Recostado no travesseiro, olhou-a com um olho e sorriu-lhe um sorriso matutino e doloroso. Ela sorriu-lhe de volta. Abriu o pano sobre a cama, colocou três cubos de gelo no centro e o fechou, transformando-o em uma pequena trouxinha gelada. Ele deu um pequeno gemido quando ela forçou o pano contra seu enorme galo na testa. Ela riu e pediu desculpas, quando teve seu olhar atraído pelo espaço deixado pela prateleira na parede sobre os travesseiros. Ela deu mais uma risada, passou a mão gentilmente sobre os cabelos do parceiro e agradeceu pela noite anterior. Estava saindo do quarto quando ouviu ele dizer alguma coisa sobre furadeira, parafusos e mais gelo.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Céu de mudança
Diria o pássaro ao céu, que não mude. E o céu diria ao pássaro, que a mudança é irremissível. Que os filhos morreriam aos seus pés e aos pés de seu canto. Que a água que nasce da terra, não mais chacinaria a sede dos homens. Que reinos surgiriam e evolariam pelo ar, sem sequer serem lembrados os nomes de seus reis. Que a maçã cairia antes que a verdade fosse dita. Que o fogo queimaria os corações dos sonhadores. Que o próprio pássaro queimaria no fogo da utopia. O céu diria ao pássaro, que o que nunca muda é o fim.
E o pássaro mudou-se para outro céu.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Escrever sobre o que se tem para escrever
Conversa entre dois amigos. Extraterrestre cai do espaço em plena quinta feira no Rio de Janeiro. Cerveja. Vinho doce. Viagem de uma freira. Essa é uma boa. Vida de um universitário da PUC. Daltonismo. Que horas são? Escritor frustrado. Jack Nicolson. Dia de chuva. Singing In The Rain. Musicais. Gene Kelly. Conversa entre o teclado e o mouse. A diferença subjetiva entre o negrito e o itálico. Japão. Samurai. Djavan. Saudade de ouvir Djavan. Sete pecados capitais. Design de interiores. Receita Federal. Altemar Dutra. Altemar Dutra jantando num restaurante sem dinheiro para pagar. Código postal de uma cidade no Recife...
O som de um rio. Rock in Rio. Elton John cantando Roberto Carlos. Pode fazer participação no "Elas" cantam Roberto Carlos. Uma vez eu vi um cachorro sem a pata esquerda da frente e a direita de trás. Ele era mais feliz que eu. Depressão: o mal da puta que pariu. Será que crianças leem isso? O preconceito do palavrão na sociedade. Um casal faz sexo pelo menos sete vezes por casamento. Polêmica. Interação entre blogs da atualidade. Comentários feitos num dentista. Máquina do dentista. Bzzzzzzz. Onomatopéias: alta cultura didática ou birutice dos grandes escritores? Onde estão as belas mulheres de uma cidade... Onde está a cabeça do homem? Pode-se provar que todo homem olha para os bumbuns de mulheres na rua muitas vezes inconscientemente. A vida de um peixe que queria ser reconhecido no mundo marinho. Ideia absurda... Como escrever um romance sem romance? Um motoqueiro viaja toda a América Latina tirando fotos de pelo menos um cidadão em cada cidade que passa. Sentimentos entre homem e mulher após cinquenta anos juntos. Escrever sobre todas as ideias que se tem para escrever. Metonímia.
E ainda têm escritor dizendo que não tem inspiração.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Ventania, sorte, outros amores
Numa palavra de amor, coração lançado. Coração lançado à sorte.
Sorte lançada ao vento, que por amor, leva a sorte e o coração até onde bem entender.
Sem mais palavras sobre corações, ventos ou amores sem sorte.
domingo, 18 de março de 2012
Aquecidos livros, aromas e fim
E lentamente, fechou o livro. Ao ler a última página, pareceu não acreditar que havia acabado. Não que ansiasse pelo fim. Pelo contrário. Gostaria de nunca parar de ler.
Ficou algum tempo fitando o vazio. Sem perceber, mexeu um pouco os dedos das mãos para fazer o sangue correr. Ficou muito tempo apoiado e suas mãos pareciam ter ido dar uma volta enquanto lia. Sentiu um leve formigamento e então voltou a si, massageando uma mão com a outra. Ao fechar o livro, suspirou, libertando o que parecia ser uma porção de ar há muito presa em seu peito.
Levantou-se da cama e foi andando até sua estante - ler deitado não é o melhor modo de se fazê-lo, pelo fato de não haver uma posição muito confortável, mas o livro em si faz ou não valer a pena - e separou dois livros, - meio caídos por falta de um outro para mantê-los unidos e aquecidos - colocando o que estava em sua mão no meio dos outros dois. Agora sim, estavam unidos e aquecidos, livros em sua estante.
Afastou-se lentamente, podendo ainda sentir um suave aroma de palavras antigas. Era um ótimo cheiro. Ele o conhecia bem - poucos o conhecem. O cheiro de páginas viradas, frases lidas e capas docemente molhadas por lágrimas de leitores abertos. Ele queria ficar ali, aproveitar o que sentia... Esvaiu-se no ar, o momento. Desapareceu, deixando um toque de desamparo, vazio. O mesmo sentimento que se têm, quando se deita levemente os olhos pela última palavra de um livro. Esse desgosto lhe parecia recente no pensamento...
Ficou algum tempo fitando o vazio. Ainda podia sentir o sangue correndo por seus dedos.
Pareceu não acreditar que havia acabado. Não que ansiasse pelo fim, não. Nunca imaginou a existência do mesmo. Pelo contrário. Gostaria de nunca parar de ler. Gostaria de nunca esquecer, mesmo que por alguns segundos - livros -, o cheiro de tudo que vem antes do final.
Ficou algum tempo fitando o vazio. Sem perceber, mexeu um pouco os dedos das mãos para fazer o sangue correr. Ficou muito tempo apoiado e suas mãos pareciam ter ido dar uma volta enquanto lia. Sentiu um leve formigamento e então voltou a si, massageando uma mão com a outra. Ao fechar o livro, suspirou, libertando o que parecia ser uma porção de ar há muito presa em seu peito.
Levantou-se da cama e foi andando até sua estante - ler deitado não é o melhor modo de se fazê-lo, pelo fato de não haver uma posição muito confortável, mas o livro em si faz ou não valer a pena - e separou dois livros, - meio caídos por falta de um outro para mantê-los unidos e aquecidos - colocando o que estava em sua mão no meio dos outros dois. Agora sim, estavam unidos e aquecidos, livros em sua estante.
Afastou-se lentamente, podendo ainda sentir um suave aroma de palavras antigas. Era um ótimo cheiro. Ele o conhecia bem - poucos o conhecem. O cheiro de páginas viradas, frases lidas e capas docemente molhadas por lágrimas de leitores abertos. Ele queria ficar ali, aproveitar o que sentia... Esvaiu-se no ar, o momento. Desapareceu, deixando um toque de desamparo, vazio. O mesmo sentimento que se têm, quando se deita levemente os olhos pela última palavra de um livro. Esse desgosto lhe parecia recente no pensamento...
Ficou algum tempo fitando o vazio. Ainda podia sentir o sangue correndo por seus dedos.
Pareceu não acreditar que havia acabado. Não que ansiasse pelo fim, não. Nunca imaginou a existência do mesmo. Pelo contrário. Gostaria de nunca parar de ler. Gostaria de nunca esquecer, mesmo que por alguns segundos - livros -, o cheiro de tudo que vem antes do final.
sábado, 17 de março de 2012
Um sorriso café
Sentada à mesa, ela sente o delicioso cheiro do café, amargo como o adeus de um amigo em um dia nublado. Café: cheiroso, amargo, café.
Estava sentada perto da porta, o que lhe permitia uma boa visão da rua escura, com luzes tênues de letreiros de bares e olhos cansados da labuta do dia.
Logo, chega o café e, com ele, um sorriso em meio à espuma.
O café lhe sorriu e ela sorriu de volta. Um sorriso cheiroso e amargo. Um sorriso café.
Estava sentada perto da porta, o que lhe permitia uma boa visão da rua escura, com luzes tênues de letreiros de bares e olhos cansados da labuta do dia.
Logo, chega o café e, com ele, um sorriso em meio à espuma.
O café lhe sorriu e ela sorriu de volta. Um sorriso cheiroso e amargo. Um sorriso café.
Maçã
Olha-me nos olhos, meu bom senhor e diz que não roubaste esta maçã. Diz que não sente fome e que tem um lugar para morar...
Cansei de pensar. Leve tua maçã... Leve minha confiança na sociedade - se é que esta ainda não foi levada por alguma ditadura moral.
Olha-me nos olhos, meu bom Senhor e leva-me deste mundo. Leve a mim, que sou sua maçã.
Cansei de pensar. Leve tua maçã... Leve minha confiança na sociedade - se é que esta ainda não foi levada por alguma ditadura moral.
Olha-me nos olhos, meu bom Senhor e leva-me deste mundo. Leve a mim, que sou sua maçã.
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