Era um pombo, como outro qualquer. Ou achava-se que era. Com penas, asas, bico e um andar engraçado e singular. Até aí, era um pombo. Mas seu espírito queria mais. Ele queria ser livre.
- Você é livre, pombo! Pode voar. Quer mais liberdade que isso? - tentava convencer-lhe outro pombo.
Isso para mim não é ser livre. Pensava o pequeno pássaro.
- Você não percebe, não é?! - disse ele ao amigo bicudo - Não somos livres. Podemos voar, sim, mas isso não importa. Aprendemos a viver das migalhas do Homem. Agora, não importa quantos voos façamos para fugir, sempre voltaremos para pedir comida.
O Homem nos controla. Não quero mais ser controlado. Eu quero ser Homem.
Certo dia, enquanto descansava sobre uma estátua de algum general desnecessariamente honrado, eis que surge uma fada.
- Não tenha medo, doce animal. - Disse a fada ao pombo. Ele já havia ouvido falar delas, quando certa vez escutou um Homem contar histórias de criaturas mágicas para seu filhote.
- Você é uma fada! - Exclamou exaltado o pequeno pássaro. - Diga-me, bela criatura, pode me transformar em um Homem, para que eu nunca mais seja controlado e arrancado de minha liberdade?
- Se é o que deseja, está decidido.
Assim, após uma luz intensa, o pombo acordou ao pés da estátua, em forma de Homem. Suas penas haviam caído, seu bico desaparecido e suas asas se tornaram braços fortes e longos. Não podendo conter a emoção, o ex-pombo saiu correndo pelas ruas, olhando para o alto e rindo de seus amigos que não haviam acreditado que ele iria conseguir.
Completamente nu, o ex-pombo foi agarrado bruscamente por outros Homens vestidos com uma espécie de uniforme. Sem entender ou conseguir se expressar, o novo Homem foi levado. Como pode uma coisa dessas? Até o próprio Homem é controlado pelo Homem. Pensou, indignado, enquanto era levado.
Na cadeia, sentiu o que era realmente não ter liberdade. Não posso voar. Durante a noite, enquanto chorava lágrimas amargas de arrependimento, a luz brilhante da fada apareceu em sua frente.
- Por favor, fada. Me transforme de volta. Me arrependo de minha decisão e quero voltar para o céu. Para casa. Por favor, eu lhe imploro. Eu preciso voar. - E enquanto suas lágrimas caíam sobre seu corpo recém coberto por trapos, essas transformavam-se em luz e cobriam-lhe os membros. Logo, todo o ser estava envolto em luz. Quando acordou, ainda era noite e o pombo estava sobre uma estátua de algum general estranhamente familiar. Viu que não possuía mais braços ou pernas longas, mas asas e pequenas perninhas desengonçadas. Um bico e muitas penas. Feliz e satisfeito, olhou para o céu e pode ver uma estrela que lhe pareceu tão familiar quanto o general lhe pareceu há alguns minutos. Sua luz... A conhecia de algum lugar. Deve ser de alguma outra estátua. Pensou o pombo. Assim, abriu suas asas e voou. Voou para bem longe, para sentir algo que nunca mais lhe foi tirado. A liberdade de voar.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Suave e despreocupada
Ela acordou de repente. No primeiro momento, pensou que ainda estava dormindo. Mas então, seria este o pesadelo mais real que já tivera. As pessoas estavam gritando, chorando, rezando. Até as aeromoças já haviam percebido o fim que ela mesma não havia notado. O avião estava caindo. Numa fração de segundos, sentiu seus pensamentos esmagados entre seu estômago e a poltrona do avião. A velocidade aumentava. Aos poucos, as sensações iam se misturando. As pancadas na poltrona, as violentas sacudidelas do avião, as lágrimas escorrendo em direção as suas orelhas. Apesar de diferentes em tom, altura e vozes, os gritos estavam quase em uníssono. O desespero era uníssono. Sua vida passava como um trem por sua mente. Viu seus filhos, seu marido, seus pais, seus amigos. Lembrou de seu primeiro beijo, de sua formatura da escola, da gravidez, do seu laboratório; tão sonhado laboratório. Como cientista, achou brilhante a comprovação de tal fato realmente ocorrer perante a morte iminente. Pensou nisso como se lhe fossem dadas as chaves do tempo. Para escrever um relatório, não seriam gastos minutos. Mas o minuto ganha o mundo. Sentiu mais um golpe, dessa vez sendo jogada para frente com toda a força... E se foi.
O som da chuva salgada abafava aos poucos o ruído grave da explosão; as pesadas gotas beijavam a pele suave e despreocupada do Mar, enquanto o mesmo engolia seus filhos, levando-os de volta para casa.
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