quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Vazio

Aquelas paredes vazias novamente despediam-se de mais uma alma. A cada vez, a mesma coisa. Imparciais, observavam o destino ser traçado naqueles leitos hospitalares, cobertos de sofrimento e pesar. Dessa vez, um caso comum de parada cardíaca. O estresse e as gorduras, como que colocadas minuciosa e atenciosamente por alguém nas paredes dos vasos sanguíneos, impediam o paciente de cumprir sua missão em vida.
A dor. Uma explosão de pensamentos, dúvidas, lembranças. Sinais nervosos percorrem todo o corpo, com esperança de acertar algum lugar que pare essa pane nos sistemas. O sangue não chega ao seu destino. O ar parece não servir para mais nada. A dor. O assustador barulho dos aparelhos toma lugar em todo seu corpo. Os médicos, vazios e imparciais, entram na sala. As paredes, os médicos, sabem que é tarde demais. O paciente também sabe. Então, como se por um estalo de dedos, a sala silencia-se. Só ouve-se o barulho, agora constante, dos aparelhos ressoando pelas lascas do chão e pelas paredes (ainda vazias). A cada vez, a mesma coisa. No começo, estas não suportavam tanta dor. E tinham um lado pelo qual lutar. As paredes, tanto quanto os médicos, queriam ver a vida. Após tanto tempo, o gosto da morte ocupou a esperança, e deixou em seu lugar a rotina, um vazio sem gosto.

Um comentário:

  1. Ele também está lá, olhando para ela, meditando sobre ela. Ele é Miguel Toscano; ela, a sua matéria-prima. Tal qual um escultor, Miguel trabalha a sua específica matéria, que é a palavra, e dá-lhe vida. E a sua palavra, que agora vive, torna-se o alimento de quem a aprecia. Olhar para o trabalho de um artista é alimentar-se do seu conteúdo. Assim é o conteúdo do texto de Miguel Toscano: arte da palavra, retirada de uma das mágicas funções da vida, e presa na moldura de nossa imaginação.

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