Tudo começou com uma vontade, um sonho. Quero ir no show do Paul, eu pensei. Comecei a correr atrás e depois de um tempo, já estava tudo acertado. No domingo, 21, eu estava a caminho do Rio para encontrar minha mãe e irmos para São Paulo. O show que assistiríamos seria no dia 22. Chegamos em São Paulo famintos. O show foi no estádio do Morumbi e não tem nada a menos de uns 2 km do estádio. Só mansões, mas duvido muito que a Hebe ou o Sílvio Santos fossem me dar um sanduíche tão gostoso quanto o do Subway. Tivemos que andar um bocado até lá, claro. Logo, comecei a ver aquelas pessoas que olhavam para o relógio como se fossem matá-lo e, às vezes, era como se ele olhasse-as de volta revoltado. Não tenho nada a ver com isso! Só estou fazendo meu trabalho. O culpado de tudo mesmo, era o tempo.
E era a verdade. O tempo nunca foi tão perverso como foi naquele dia. É importante dizer que estava quente. Muito quente. As camisas pretas com rostos e nome daquele senhor mundialmente conhecido esquentavam milhares de corações naquele dia. Corações, cabeças, braços, pés. Estava muito quente.
Pulando muita caminhada, calor e camisas pretas, eu chego aonde queria chegar.
Na fila, éramos uns dos primeiros. Eu não sabia o que fazer. Horas me separavam de um homem, de uma lenda. Porque, afinal de contas, é isso que ele é. Uma lenda. Já que ia ficar por ali por um bom tempo, resolvi socializar com os outros fãs. Me senti familiarizado com eles, de certo modo. Alguns estavam ali sozinhos, outros com a família. Eu estava ali com minha mãe, a minha família. Também estavam lá todo o tipo de gente. Nerds, emos, rockeiros, malucos assando espetinhos numa lata de tinta que servia de churrasqueira, ao som de Beatles, é claro. Mas eu também estava sozinho. Algo naquele lugar me transmitia milhões de sensações diferentes por minuto. Nem mesmo o calor derrubava meu astral. E nem mesmo a chuva. Exatamente, nem a chuva.
Uma coisa curiosa é o poder da mente. Enquanto estávamos parados, conversando na fila, vários incansáveis e oportunistas vendedores rodeavam o estádio nos empurrando trecos e mais trecos. Bótons, camisas, água, cerveja, guarda-chuva, capas-de-chuva, etc. É importante dizer que comprei muitos bótons e duas camisas do Paul. Sim, o consumismo foi inevitável. E, é importante ressaltar também que existiam subdivisões entre os muambistas. Os piores deles, eram os vendedores de capa-de-chuva. Algumas pessoas até compravam os guarda-chuvas, mas as capas... O sol estava a pino! Pra que diabos iríamos querer uma capa? Com essa revolução, os vendedores começaram a praguejar. Vai chover, ein?! Quando chover o preço aumenta!
E adivinhe, leitor, o que aconteceu... Pois é. Mais impressionante que o poder da mente, é a moça do tempo.
Claro que eu tinha levado capa-de-chuva. Eu sabia que ia chover. Foram seis horas debaixo de uma chuva ininterrupta. Quem antes reclamava do calor abafado pela densa neblina de São Paulo, agora reclamava dos pés ensopados. Ali, entre o fim do sol e o começo da verdadeira emoção, eu vi algo que me chamou a atenção.
Era um senhor com seus quarenta anos. Deficiente físico. Se apoiava em duas muletas, e em uma paixão. Ironicamente, não lembro o seu nome. É engraçado, como esquecemos os nomes daqueles que mais nos impressionam. Os seguranças não podiam deixá-lo entrar antes da hora, por medidas de segurança. Sua acompanhante estava irritada com a falta de educação e bom senso. Um outro senhor veio falar sobre a situação, questionando. O clima se tornou tenso. E o homem, com brilhantes olhos azuis escondidos por um par de óculos parcialmente molhados sobre a aba de um boné, simplesmente cantou. All we're saying, is give peace a chance. Por várias vezes, ele cantou. Eu o acompanhei, alto o suficiente para que ele escutasse, e retribuisse com um sorriso. Nada vai estragar meu dia. Foi o que ele me disse. No final, por educação, nossa 'família fila' consentiu em deixá-lo passar.
Um homem movido por uma paixão, ultrapassa barreiras que poucos ultrapassariam por uma simples vontade.
Entramos no estádio. O vazio era lindo. O vazio ocupado era mais. Sir James Paul McCartney sobe ao palco e simplesmente destrói com a multidão. O show foi impecável. Com um português muito bem falado, ele e as mais belas músicas conquistaram a todos. Inesquecível. Compartilhei os momentos com meus amigos de fila. Com minha mãe. Comigo mesmo. Com o próprio cantor, a lenda viva. Me arrepiei como nunca quando ele cantou Let It Be. E na hora de Give Peace A Chance, só pude lembrar do senhor apaixonado na fila.
Nada vai estragar meu dia. Foi o que ele me disse.
Me despedi de minha 'família fila'. Com os emails anotados, voltei para casa. Me certifiquei de escrever cada palavra deste texto ao som do Sir e aqui me despeço de minhas lembranças de uma experiência inesquecível.
Ao colocá-las aqui, simplesmente eternizo esse momento para o mundo. Mas para mim, essas lembranças começaram a ser eternas com uma simples vontade, um sonho.
Para a Família Fila.
foda. é única palavra que consigo pensar depois de ler isto. foda.
ResponderExcluirFico pensando: o que faz um "menino", feito M.Toscano, identificar-se com a Beatlemania? Apenas dois ítens: o fenômeno Beatle, incomparável e universal, e a sensibilidade, também artística, desse "menino". Assim como a excelência da música, a sensibilidade humana é também atemporal.
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